09 janeiro 2019

[GEEKABLE] [CRÍTICA] A Primeira Noite de Crime

[Repostagem temporária de algumas críticas que publiquei no Geekable].
[Matéria de 2018]

A Primeira Noite de Crime


Quando o primeiro Uma Noite de Crime foi lançado a meia década atrás, talvez nem era esperado todo o sucesso que fez. Eis que, após uma trilogia divisora de opiniões e sem ter para onde avançar, a franquia chega ao seu quarto longa, contando o começo de tudo.



Enquanto o primeiro longa se focou em ambiente fechado, com a história passando dentro de uma casa, o segundo expandiu os horizontes e colocou novos personagens nas ruas. O terceiro enfim explorou mais o lado político desse universo, desenvolvendo também o lado da rebelião.



O diretor e roteirista da franquia, James DeMonaco, retorna para o quarto filme com sua insana premissa onde o governo dos Estados Unidos permite que, por 12 horas seguidas, o crime seja liberado. É o chamado Expurgo. Entretanto, dessa vez ele é apenas roteirista, deixando o cargo de diretor para Gerard McMurray (Código de Silêncio).



Novos personagens





O astro Frank Grillo não retorna para o novo longa. Ele já havia demonstrado desinteresse e dito que não retornaria. Por se passar no começo de tudo, sua ausência é justificável, já que ele apareceu apenas no segundo e no terceiro filme. E, assim como os filmes anteriores, novos personagens dão as caras.



Na trama, uma pesquisa é posta em prática quando o governo americano passa a ser controlado pelos Novos Pais Fundadores, que prometem uma reforma no país. A cidade de Staten Island é escolhida para o experimento. O local é composto pela da população de baixa renda e possui altos índices de crime. O governo oferece cinco mil dólares para quem permanecer no local e mais recompensas para quem participar do ato.



A Dra. May Updale (Marisa Tomei) é a responsável pelo projeto, financiado pelos Pais Fundadores. Dentre o grande elenco, temos a protagonista Nya (Lex Scott Davis), uma garota que luta contra o Expurgo. Ela possui um passado com Dmitri (Y'lan Noel), traficante poderoso da região. Enquanto ela busca refúgio na igreja, seu irmão Isaiah (Joivan Wade), decide participar do Expurgo buscando vingança contra o assassino Esqueleto (Rotimi Paul).



Apesar do filme não assumir, a trama também pode ser interpretada envolvendo questões raciais, já que o elenco é praticamente composto de atores negros, justamente os moradores de Staten. Os brancos entretanto são mostrados no poder. O tema do filme é provavelmente o mais interessante da franquia. Infelizmente nem tudo são flores.



Problemas





É realmente interessante acompanhar como o povo reage ao fato de poder matar e furtar sem consequências (e ainda ser recompensado caso sobreviva). Entretanto, a experiência, ainda em estágio inicial, não é muito animadora. O filme se utiliza de surpresas bastante anti-clímax, mas ao mesmo tempo totalmente válidas e aceitáveis. Meio controverso, mas é isso mesmo. Demora para o Expurgo ganhar vida e mesmo assim tudo o que não envolve os principais é apresentado de forma rasa até demais.



Querendo ou não, a franquia chama a atenção não apenas por sua premissa, mas por suas cenas de ação. Pessoas fantasiadas saindo por aí matando loucamente. Quando isso não é satisfatório, o longa se torna cansativo. A trama principal carrega uma ótima história, mas sua ação, que chega a ser boa e está presente em determinados pontos, não são o suficiente. E isso pesa num filme do gênero.



Não é querer alimentar um gosto sádico, mas o filme exibe diversas situações do Expurgo como se fossem vagas compilações do que está acontecendo. Vemos o que está ocorrendo ao redor da cidade, mas bem de relance. Não que os anteriores não façam isso, mas aqui deixa a desejar. A sensação é de que poderia ser melhor, até mesmo quando se trata dos momentos dos protagonistas.



O trunfo do longa é justamente a história e seu contexto, trazendo novidades e se destacando assim como cada filme fez. Nunca é mais do mesmo. Cada capítulo explora um tema diferente. O visual, a trilha sonora, tudo está bom, até mesmo o roteiro, mas faltou algo. O clímax por exemplo é incômodo demais para aqueles com sensibilidade a luz.



Embora possa ser o filme mais fraco da franquia, A Primeira Noite de Crime apresenta conteúdos que só acrescentam na mitologia. Ainda há potencial a ser explorado. Inclusive questões ficam em aberto sobre como tudo aquilo evoluirá para o que foi visto no primeiro longa. Óbvio que há suspeitas, mas falta desenvolvimento. Caso a franquia não continue no cinema, alegrem-se os fãs pois uma série de TV está em andamento.




[GEEKABLE] [CRÍTICA] Buscando...

[Repostagem temporária de algumas críticas que publiquei no Geekable].
[Matéria de 2018]

Buscando...


Nas últimas décadas, filmes foram feitos mostrando o perigo de conversar com estranhos pela internet. Longas como A Sala Negra e Confiar são exemplos claros de como não conhecemos aqueles que estão por trás da tela. As vezes nem mesmo quando os encontramos pessoalmente. Agora imagine uma premissa nessa pegada, só que toda se passando numa tela de computador. Esse é Buscando...



O estilo do longa não é exclusivo nem original, mas existem tão poucos filmes assim que acabam se destacando. Seja em Megan is Missing, The Den ou Amizade Verdadeira, somos apresentados a situações vistas sob o ângulo de webcams, serviços de stream, gravações de segurança, celulares, etc. A diferença é que tais filmes, apesar do suspense em comum, costumam trazer algo mais voltado para o terror, enquanto esse é mais voltado para o drama.



O primeiro longa do diretor Aneesh Chaganty (também roteirizado pelo mesmo) se destaca por trazer uma experiência realista através de tudo o que uma tela de computador tem a oferecer. O resultado chega a ser mais interessante e de certa forma mais proveitoso que seus semelhantes. Tirando uma ou outra cena, a maior parte se passa no desktop.



A trama acompanha o pai de família David Kim (John Cho) em busca de sua filha desaparecida Margot (Michelle La), de 16 anos. Enquanto a detetive Rosemary Vick (Debra Messing) investiga o caso, Kim decide invadir o notebook da filha em busca de informações, o que o leva a novas descobertas. A cada novidade, uma reviravoltas ocorrem ao longo da trama.



Experiência diferente





O processo de pesquisa do protagonista é mostrado em detalhes. Ele realmente vai fundo na procura por tudo o que a filha publicava online. A história vai sendo contada por conversas por chats e webcam, pesquisas em páginas da internet, sites de vídeos e notícias, redes sociais, arquivos do computador, etc. É como acompanhar uma "gameplay" de um simulador de PC. A comovente abertura deixa claro a proposta do longa.



Todo o modelo de tela, tanto do Windows quanto do Mac, são fielmente reproduzidos no filme, desde o visual, até os ícones, papel de parede, descanso de tela e afins. Inclusive as formas que os programas abrem e como são utilizados. Até quando usam outros meios para contar a história, fazem questão de manter tudo dentro da proposta e da forma mais real possível.



A versão traduzida do filme merece bastante destaque por manter a fidelidade do estilo. Traduziram e adaptaram o máximo possível sem influenciar no conteúdo, o que aumenta ainda mais a experiência. É bacana citar o cuidado que tiveram, aproximando assim o público.



O filme é claramente um alerta aos pais e aos próprios filhos ou usuários de chats diversos na internet. Nunca se sabe quem está por trás do outro perfil. Buscando... talvez seja o longa que melhor conseguiu utilizar o estilo de tela de computador. Sua trama "simples" é enriquecida pela experiência do formato, pelas reviravoltas e por acompanharmos todo o processo de investigação. Uma grande crítica a nossa exposição virtual.

[GEEKABLE] [CRÍTICA] Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas

[Repostagem temporária de algumas críticas que publiquei no Geekable].
[Matéria de 2018]

Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas


Em 2013, o Cartoon Network decidiu trazer de volta o "antigo" desenho de Os Jovens Titãs, da DC, através de uma releitura mais infantil. Surgia assim Os Jovens Titãs em Ação!, dividindo o público e recebendo tanto críticas quanto elogios. Eis que agora, em pleno 2018, a série recebeu seu próprio longa para os cinemas.



Claramente inspirado em sua versão anterior, que por sua vez foi baseado na hq dos anos 60, o desenho é uma grande sátira aos super-heróis, trazendo situações cômicas e por vezes bobas, mas também referências a cultura pop, participações especiais e afins. Com o filme não é diferente.



Podemos considerar o longa de Os Jovens Titãs em Ação! como uma versão infantil do filme de Deadpool. As referências estão lá, assim como a quebra da quarta parede, a metalinguagem e as participações especiais. E haja percepção para notar todos os detalhes.



Na trama, Robin, Ravena, Estelar, Mutano e Ciborgue querem ter o próprio filme, mas logo percebem que são considerados uma piada no mundo dos super-heróis (frase dita inclusive pelo Superman numa de suas participações, que não poupa e ainda diz que eles são bobos demais). Revoltados, eles decidem provar que são merecedores de terem o próprio filme.



A ideia central é a busca por um arqui-inimigo, que, na lógica deles, é o que gera um filme a um herói. No caso, eles escolhem o Slade (confundido com o Deadpool) após um encontro, mas a trama vai muito além disso. Pequenos arcos, cenas variadas, tudo vale na aventura nas telonas, que sequer se leva a sério e isso só melhora o resultado.



Embora seja um filme dos Jovens Titãs, o Robin é o que mais recebe destaque. Isso ironiza a própria trama ao longo do desenvolvimento. Proposital ou apenas a busca por um personagem de destaque? A todo o momento ele quer um filme dele e meio que consegue isso indiretamente.



Como dito anteriormente, as referências estão presentes no longa assim como é no desenho. Por parte dos super-heróis, há nítidas referências a Marvel (incluindo uma surpresa) e a própria DC. Há também menções a histórias em quadrinhos, desenhos animados, séries, filmes, etc, seja pela obra citada diretamente, seja através de algum personagem, seja por paródia. E não se restringem apenas a produções da Warner.



Essa liberdade de referências enriquece também a já citada metalinguagem. É um filme sobre a busca por merecer um filme. Logo na primeira parte do longa já vemos os Jovens Titãs no cinema presenciando trailers numa situação hilária. Tudo na trama ocorre ao redor de filmes. Toda a aventura se dá porque eles querem um filme deles.



O longa carrega o clima do desenho, assim como seus defeitos e qualidades. É como um longo episódio ou uma coletânea linear. Tem seus momentos de ação, de drama, de aventura, mas o foco mesmo é na comédia. Ainda há algumas cenas musicais com canções que ficam na mente durante aquele momento. E repetindo: O resultado ainda é um filme infantil feito para os fãs do desenho infantil. Boa diversão.

[GEEKABLE] [CRÍTICA] Tomb Raider: A Origem

[Repostagem temporária de algumas críticas que publiquei no Geekable].
[Matéria de 2018]

Tomb Raider: A Origem

Um bom filme semi-genérico de sobrevivência na selva baseado num aclamado jogo.



Tomb Raider possui seu legado e isso pesa no resultado. Adaptar um jogo baseado em exploração e sobrevivência pode dar muito certo ou muito errado. Deixar uma marca é que é o problema, visto que pode se tornar qualquer coisa.

Tendo estreado em 1996 nos videogames, a exploradora Lara Croft fez enorme sucesso, entrando para o Livro dos Recordes em 2006 como a aventureira heroína mais bem sucedida do mundo dos games.

A que se deve essa fama? Seus ótimos jogos? Também, mas sabemos que não era apenas isso. Uma das características que tornava Lara reconhecida era um aspecto peculiar: seus seios avantajados. Uma grande bobeira para os dias de hoje, os polígonos esticados faziam marmanjos babarem antigamente. Pois é. Ver para crer.

Em meio a essa leva de jogos, a franquia recebeu duas adaptações duvidosas com a bela Angelina Jolie, uma em 2001 e outra em 2003. A primeira chegou a se tornar na época a adaptação de jogo mais lucrativa do cinema.

Como novos tempos requerem novas medidas, em 2013, em seu décimo jogo, a franquia sofreu um reboot que mudaria tudo. Eis que Tomb Raider se tornou um jogo de sobrevivência, trazendo uma Lara remodelada, mais jovem, humana, realista, natural.  Foi sucesso de crítica e público e não demorou para receber continuação. Agora, em 2018, foi lançada a adaptação.

Não cheguei a jogar o jogo, porém, de acordo com os gamers que tive contato, o filme ficou fiel ao jogo (salvo momentos), o que acabou por dividir opiniões, como aqueles que disseram preferir "jogar novamente" em vez de "ver um resumo" (o que chega a ser irônico, visto que o público gamer é impossível de se agradar no cinema, reclamando quando um filme não é fiel ao jogo, mas também quando um filme é fiel). Prosseguimos.

A nova Lara Croft
A trama inicia com Lara Croft (Alicia Vikander) em Londres, dividindo seu tempo entre trabalho de entregadora e treinos de boxe. Seu pai, Richard Croft (Dominic West), está desaparecido faz sete anos e ela recusa a assumir seu lugar em sua empresa. Ao descobrir seus segredos, ela parte em busca da ilha que foi seu último ponto de partida. Para ir até lá, ela recebe a ajuda de Lu Ren (Daniel Wu), filho do cargueiro que levou o pai de Lara para o local.

Todo o primeiro momento do longa se diferencia do demais, possuindo um clima urbano e mais aberto a desenvolver o perfil de Lara, embora não tenha muito o que mostrar. Não que sejam os minutos mais fracos do longa, mas são os trechos menos empolgantes. Apenas quando Lara embarca é que o gancho para a aventura começa.

É na ilha que conhecemos o vilão da trama, Mathias Vogel (Walton Goggins), um homem misterioso que já havia trabalhado com Dominic no passado. Ele logo aprisiona Lara e é aqui que o foco do filme se inicia. A partir desse momento, o longa se torna parte sobrevivência e parte exploração. Há espaço na trama para os dois lados da personagem.

A linha narrativa prossegue como um filme de diversos acontecimentos onde uma coisa vai levando a outra. Afim de evitar spoilers, não entrarei em detalhes. É uma trama simples e objetiva de fácil agrado.

Alicia Vikander está perfeita na personagem. Bons momentos para perceber isso são nas poucas, porém marcantes, cenas em que ela está sozinha na selva. A empolgante cena do avião e a cena noturna de tirar o fôlego deixam isso claro.

Como o subtítulo sugere, aqui vemos a origem da personagem. Antes de começar a usar suas pistolas e afins, antes de ter recursos para armamentos e tecnologias, temos uma guerreira com arco e flecha no mais puro instinto de sobrevivência e nada mais. Fantástico.

Tempo
Infelizmente o filme sofre com tempo. Como disse lá na parte sobre a opinião dos gamers sobre "jogar novamente" em vez de "ver um resumo", o filme realmente parece um resumo. Como também deixei levemente a entender na parte das "poucas, porém marcantes" cenas de Lara sozinha na selva, tudo parece muito curto.

De certa forma, o filme é realmente um resumo do jogo, mas não deram tempo suficiente para explorar esse universo. Claro que isso se deve ao fato dos limites de duração de um longa. Fica a sensação de que estão indo rápido demais com os acontecimentos. Por um lado isso é bom, evitando o longa de cair na enrolação, mas por outro impede o longa de aproveitar seu material como deveria.

Senti falta de mais cenas de sobrevivência e de exploração de Lara, mais cenas dela vagando pela floresta e por cavernas, mais cenas dela resolvendo puzzles, etc. Na verdade tudo isso é tão reduzido no filme que colocam uma ou duas cenas de algo só para dizer que tem. Mas novamente repito: Isso é mais culpa do formato do que do roteiro.

Tomb Raider funcionaria melhor como uma série do que no cinema, dando mais tempo para desenvolver o universo apresentado. E para os gamers que reclamassem que desse jeito seria literalmente melhor jogar o jogo novamente, digo que muitos veem gameplays, então seria meio que ver uma gameplay, só que regravada como série.

Genérico
Algumas reviravoltas previsíveis ocorrem na trama. Aliás, soube que para quem jogou o jogo pode ser surpresa por mudarem alguns acontecimentos, o que ao meu ver não deu certo, deixando algo totalmente genérico. Não que isso negative a trama. O fato de algo ser genérico não necessariamente torna esse algo ruim, apenas deixa de torna-lo marcante.

O filme é o que é (óbvio). Como dito anteriormente, adaptar um jogo de sobrevivência é complicado e pode se tornar vago. Tomb Raider mostra uma mulher em meio a uma selva lutando para sobreviver. O que a torna especial? É como adaptar um jogo de guerra ou um jogo de corrida. É necessário que a essência do jogo, que o que torna o jogo único e diferente dos demais, esteja ali no filme. Tomb Raider... provavelmente consegue.

Vamos ao ponto: A história é sobre uma mulher que está tentando sobreviver em meio aos perigos da selva enquanto é perseguida por um grupo armado que está atrás de algo que seu pai procurava. O fato de ser uma mulher já é um enorme diferencial, ainda mais em meio a tantos filmes de sobrevivência com homens. O fato dela não ser um sexy symbol assim como sua antiga versão também é um diferencial. No mais, Tomb Raider é o que é (obviedade novamente). Uma boa história e respeito ao público é tudo o que importa. Aceite e seja feliz.

Futuro
Em tempos de politicamente correto e também de busca pela representação feminina como deveria, a franquia consegue agradar boa parte dos públicos, o que deve ser levado em conta. Entre erros e acertos, a adaptação pode até deixar a desejar em alguns quesitos, mas seu saldo final ainda é positivo.

Apesar de estar dividindo opiniões com seu filme, assim como aconteceu com sua antiga versão, resta esperar para saber se a franquia ainda conseguirá ser um sucesso no cinema assim como é nos videogames. Espero muito que façam um segundo filme. Ou quem sabe uma série de TV...

[GEEKABLE] [CRÍTICA] O Motorista de Táxi

[Repostagem temporária de algumas críticas que publiquei no Geekable].
[Matéria de 2017]

O Motorista de Táxi

Subtítulo: Jornalista e taxista se unem contra os militares em filme baseado numa história real.

Nota: 4,5 estrelas

Resumo: Baseado em fatos, o filme transmite o impacto da descoberta de uma ditadura através dos olhos de um taxista e um repórter. Com ótimo desenvolvimento e personagens altamente envolventes, a abordagem sobre o ser humano emociona.



Imagine que você é um taxista e um jornalista revela que algo estranho está acontecendo num local do país que você mora. Você não acredita, mas o leva até lá e então o choque de realidade atravessa seus pensamentos. É isso que acontece em A Taxi Driver, inspirado/baseado em fatos.

O filme se passa nos anos 80 e conta o que ocorreu no fatídico Massacre de Gwangju, na Coreia do Sul, quando militares cercaram todo o território e agrediram seus moradores. Uma pequena ditadura ocorrendo sem ninguém de fora saber.

O personagem que dá título ao filme é Kim (Kang-ho Soon), um taxista que vive sua vida normalmente tentando ganhar dinheiro. Endividado e com uma filha para cuidar, ele ouve sobre uma proposta de um jornalista com um pagamento que quitaria suas dívidas e malandramente vai até o local, pegando para si o cliente de outro taxista. O jornalista é Peter (Thomas Kretschmann), um repórter alemão que estava no Japão e decidiu ir para a Coreia do Sul após rumores sobre o ocorrido em Gwangju. Juntos, eles vão até o local.

Inicialmente, o longa possui um clima parcialmente tranquilo. Temos música tocando no rádio, cenas de estrada, humor e algumas intervenções militares ocorrendo nas ruas devido a protestos. Para Kim, mais um dia qualquer.

Quando os personagens chegam em Gwangju é que as coisas começam a ficar mais sérias. Bloqueado pelo exército, eles buscam meios de entrar no local e acabam conseguindo. Lá, se deparam com ruas desertas, destruição, feridos e protestantes (no sentido de pessoas que protestam, não religião).

O objetivo do repórter é gravar o que está acontecendo, afinal, o jornalista deve informar o ocorrido sem influenciar no cenário, passando apenas os fatos. Mas o que era apenas para ser registrado em troco de dinheiro, acaba se tornando uma luta pela vida e a formação de amizades inesperadas, tornando-o parte da história.

É notável a construção da relação entre os personagens. Começando como dois estranhos e continuando assim por um bom tempo, as situações o forçam a tornar-se mais interligados. Enquanto esse desenvolvimento ocorre, outros personagens começam a aparecer. Cada um é diferente do outro e todos criam um vínculo com os dois principais. Mesmo quando nomes não são identificados, o filme faz questão de nos apegarmos a eles.

É notável também o amadurecimento dos personagens. Kim, sempre com auto-estima mesmo nos momentos difíceis, percebe que seu povo necessita de ajuda e que sua vida, apesar de soar sempre mais do mesmo, é melhor do que daquelas pessoas que estão em guerra. Peter, por sua vez, se envolve numa nova cultura e num acontecimento que o torna mais humano. Seu jeito sempre sério e o fato de ser de nacionalidade diferente o destaca em meio a multidão. Ambos percebem que, mesmo em meio ao caos, as pessoas tentavam ser felizes.

A questão jornalística é retratada no longa. A ditadura local censura os jornais e não deixa que nada saia de lá. País afora, ou nada aconteceu ou foram os protestantes que atacaram e mataram soldados. Peter, tendo apenas sua câmera, registra o que a mídia não mostra, tornando um símbolo de esperança para aquele povo e uma ameaça para o exército.

Aproveitando o gancho, é muito bom ver um filme onde o jornalista não é mostrado como o todo-poderoso. Ele é visto como herói pelo povo devido ao seu objetivo, mas o filme faz questão de mostrar que ele é apenas mais um humano em meio aos demais, vivenciando tudo que os outros vivenciam.

É possível sentir uma variação de gêneros entre o humor, o drama e a "ação". Normal dos filmes sul-coreanos. Entretanto, nesse caso, é como se cada ato acrescentasse um gênero a mais. O resultado é interessante.

Apesar de ser uma história real, o filme usou como base os relatos do jornalista. Não tira mérito algum, claro. A verdade está lá e o fato da produção ser sul-coreana ajuda a tornar mais natural o lado dos sul-coreanos.

O interessante é que, com o lançamento do filme e após supostas dúvidas sobre a veracidade de alguns elementos, respostas vieram a público. Embora seja um caso real, prefiro não dar spoilers, apenas dizer que o longa ajudou a entender melhor a amizade entre os dois e o que aconteceu naquele local e naquela época. Para os curiosos, pesquisem sobre eles.

O Motorista de Táxi, que agora concorre a uma vaga no Oscar, é um belo conto sobre humanidade. Fruto de um caso real, ele retrata um momento marcante da história do país asiático através dos olhos de um simples taxista e de um repórter em busca de notícia. A forma que o longa aborda e desenvolve os personagens e o impacto dos acontecimentos é espetacular.

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Ninguém importante. Formado em jornalismo. Ex-colunista de cinema, quadrinhos e k-pop por aí.