Estou deitado e abro os olhos, esperando que alguma criatura apareça bem na minha frente, mas nada aparece. Olho para cima do guarda-roupa, esperando que alguma criatura esteja lá, mas não está. Embaixo da cama, tentando me puxar, nada. Olho para trás da estante da televisão, esperando que alguma criatura surja por lá, que esteja me observando, que eu veja um rosto estranho mas brechas, mas nada acontece. Imagino então estar sentado de boa, até ouvir uns passos do nada cada vez mais perto, e então alguma criatura emergindo pela porta correndo pra cima de mim rapidamente, mas nada ocorre, nem som, nem aparição. Olho para o guarda-roupa novamente, esperando que de lá saia algo, mas não sai. Me levanto então, saio do quarto e ando pela escuridão do corredor de casa, olhando para onde não é possível enxergar nada direito, esperando que dali emerja algum ser, mas, novamente, nada acontece. Encaro, bastante, mas nada. Vou até a cozinha, luz acesa, e volto meu olhar para a escuridão dos outros cômodos, esperando que alguém apareça dali, mas estou apenas eu. Vou até o banheiro e, ao sair, esperando que um bicho esteja bem na porta ou no corredor me esperando, não está. Volto para o quarto. Vazio. Apenas eu. Nada.
Blog do Lucas Cardozo
Aqui publico matérias que escrevi ao longo dos anos para sites e blogs e também rascunhos de publicações e outras aleatoriedades. Um espaço pessoal para textos diversos. Espero que gostem.
07 setembro 2026
06 setembro 2026
[CHATGPT] Sobre palavras como anemoia, kenopsia, hauntologia e outros
Com a popularização da estética de espaços liminares, junto a questão de nostalgia e afins, noto que temas como, além desses citados, melancolia, saudade, solidão, tranquilidade, conforto, sereno, paz, medo, tensão, incômodo, entre outros, separados ou misturados, estão cada vez mais presentes, principalmente na internet, junto também com a ideia de definir sensações como andar na rua de noite, o clima da madrugada de antigamente, o neon da vida noturna, entre outros relacionados. Pois bem. Venho notando palavras que ao longo da minha vida eu nunca tinha ouvido falar e que agora vez ou outra me deparo com elas. Palavras como anemoia e kenopsia se tornaram mais frequentes, assim como hauntologia, na medida do possível. Populares em seus nichos, não na língua do povo.
Pedi então para o ChatGPT me falar sobre isso. Editei a formatação. Segue.
[ChatGPT] Sim — e acho que o que você está percebendo é maior do que simplesmente uma moda de palavras “bonitas” da internet. Existe quase um vocabulário inteiro para estados intermediários da experiência humana: estar entre passado e presente, presença e ausência, familiaridade e estranheza, conforto e inquietação, pertencimento e deslocamento. E há uma peculiaridade importante: essas palavras não pertencem todas à mesma categoria. Algumas são conceitos filosóficos ou estéticos antigos; outras são termos psicológicos; outras são palavras tradicionais de determinadas línguas; outras são neologismos recentes — especialmente os de John Koenig, do The Dictionary of Obscure Sorrows. Misturadas na internet, porém, elas acabaram formando uma espécie de grande “linguagem da atmosfera”. Vou separar essas famílias, porque isso ajuda muito a entender o fenômeno.
# 1. Primeiro: o universo do "sentir um lugar" - Talvez seja aqui que tudo comece. Você descreveu coisas como: andar sozinho à noite; uma rua vazia de madrugada; iluminação de neon; chuva; lugares que normalmente estariam cheios, mas estão vazios; escolas, shoppings, piscinas ou escritórios sem ninguém; uma cidade quando quase todo mundo está dormindo; sensação de que determinado lugar pertenceu a outra época; tranquilidade misturada com inquietação; familiaridade misturada com estranheza; nostalgia de algo que você não consegue identificar. Isso é interessante porque não estamos falando apenas de emoções. O ambiente parece produzir a emoção. É aí que entram conceitos como atmosfera, liminaridade, estranheza, nostalgia, memória, ausência e hauntologia. Uma maneira de visualizar: lugar → atmosfera → sensação → memória → imaginação → significado. Uma rua às 14h pode ser apenas uma rua. A mesma rua às 3h da manhã, completamente vazia, iluminada por alguns postes e com uma loja fechada, pode parecer um lugar diferente, mesmo que fisicamente seja exatamente o mesmo. E isso é uma das coisas que a estética liminal explora magistralmente.
# 2. Liminalidade — estar entre mundos - Liminal vem do latim limen, “limiar”, “entrada”, “soleira”. A ideia original não nasceu na internet. O antropólogo Arnold van Gennep utilizou o conceito de limen ao estudar ritos de passagem. Posteriormente, Victor Turner desenvolveu a noção de liminality como uma condição intermediária: a pessoa deixou uma posição anterior, mas ainda não assumiu completamente a nova. ([ScienceDirect][1]). Por exemplo: criança → adolescente → adulto. O adolescente ocupa um espaço liminar. Não é mais criança, mas ainda não é plenamente adulto. A internet pegou essa ideia e a transformou em algo visual e espacial: lugar que não parece estar totalmente em seu estado normal. Daí: corredor de hotel vazio; shopping sem pessoas; aeroporto de madrugada; escola durante as férias; parque de diversões fechado; estação de metrô vazia; estacionamento iluminado à noite; piscina coberta sem ninguém. O importante não é simplesmente estar vazio. É estar vazio quando deveria haver pessoas. É isso que produz boa parte da sensação. Uma escola vazia às 3h da manhã é muito diferente de um deserto. O deserto não está “faltando” ninguém. A escola está. E essa ausência torna as pessoas imaginativamente presentes pela própria ausência.
# 3. Kenopsia — talvez uma das palavras mais importantes desse universo - Kenopsia é um neologismo criado por John Koenig. É a atmosfera estranha e melancólica de um lugar que normalmente estaria cheio de pessoas, mas está vazio. A palavra é construída a partir do grego kenós, “vazio”, combinado com -opsia, relacionado à visão. ([Wiktionary][2]). Imagine: Você entra num shopping às 3 da manhã. Não há ninguém. As luzes ainda estão acesas. As lojas estão fechadas. A música ambiente talvez continue tocando. As escadas rolantes continuam funcionando. O lugar parece esperar pessoas que não estão lá. Isso é kenopsia. E perceba uma coisa fascinante: kenopsia não é simplesmente solidão. Você pode estar sozinho numa montanha e não sentir kenopsia nenhuma. Kenopsia depende da expectativa social do espaço. É: “Este lugar foi feito para estar cheio de gente. Por que não está?”. Por isso ela é tão importante para a estética liminal.
# 4. E aqui aparece uma coisa ainda mais interessante: o estranho familiar - Existe uma sensação recorrente nesse universo: “Eu conheço isso... mas há alguma coisa errada.”. Isso se aproxima do conceito de uncanny, normalmente traduzido como estranho, inquietante ou sinistro familiar. O uncanny não é simplesmente medo. É quando algo simultaneamente parece: familiar + estranho. Uma casa comum pode provocar isso. Uma rua que você conhece pode provocar isso. Uma foto antiga da sua própria cidade pode provocar isso. Um brinquedo infantil abandonado pode provocar isso. Um corredor de hotel pode provocar isso. E uma das razões pelas quais espaços liminares funcionam tão bem é justamente porque eles exploram essa contradição: “Eu reconheço esse lugar, mas não reconheço o estado em que ele está.”.
# 5. Nostalgia não é apenas saudade do passado - Aqui começa outra enorme família. A própria palavra nostalgia tem uma história curiosa. Ela foi criada no século XVII a partir do grego: nostos = retorno para casa - algos = dor. Ou seja: “dor pelo retorno” - “dor de não poder retornar para casa”. Originalmente era quase um termo médico para a angústia associada à distância da pátria. Com o tempo, tornou-se a nossa nostalgia. Mas a internet começou a explorar formas muito mais específicas dela. E aí chegamos a uma das palavras que você citou.
# 6. Anemoia — nostalgia por uma época que você nunca viveu - Anemoia é outra criação de John Koenig. É a sensação de nostalgia por um tempo que você não experimentou pessoalmente. O termo foi criado por Koenig em 2012. Sua etimologia é deliberadamente inventada a partir do grego ánemos (“vento”) + uma adaptação de -noia, como em palavras como paranoia. ([Wiktionary][3]). Imagine alguém nascido em 1995 vendo: fotografias de uma cidade em 1978; adolescentes numa locadora nos anos 1990; uma televisão CRT exibindo comerciais antigos; pessoas andando pela rua antes dos smartphones; uma festa de família dos anos 1980; uma cidade à noite fotografada em filme; uma estação de metrô de 1985. E pensando: “Eu queria ter vivido isso.”. Mas você não quer necessariamente aquele evento. Você quer a atmosfera de uma existência que nunca foi sua. Isso é anemoia. E ela explica uma quantidade enorme da nostalgia contemporânea.
# 7. Anemoia é especialmente importante para entender a internet atual - Porque hoje temos acesso visual a praticamente qualquer época. Você pode assistir: “São Paulo, 1987” ou “Rio de Janeiro, 1998 — madrugada” ou “Tokyo streets 1995” ou simplesmente assistir a vídeos antigos de pessoas vivendo suas vidas. E o cérebro pode produzir algo parecido com uma lembrança. Só que é uma memória de algo que nunca aconteceu com você. É uma espécie de: memória imaginária. Não é literalmente uma lembrança falsa. Você sabe que não viveu aquilo. Mas emocionalmente pode adquirir a textura de uma lembrança. Isso ajuda a explicar por que fotografias antigas, VHS, comerciais antigos, músicas, interfaces de computadores, shopping centers, videogames e gravações caseiras têm se tornado tão poderosos como objetos estéticos.
# 8. E então temos a saudade — que é muito mais complexa - Saudade é especialmente interessante porque não é simplesmente “nostalgia em português”. Sua etimologia é debatida. A explicação tradicionalmente mais aceita a relaciona ao latim solitas/solitātem, “solidão”, passando por formas como soidade e soedade; existem, porém, outras hipóteses etimológicas, incluindo influências de saudar e até do árabe sawdāʾ. ([MDPI][4]). Mas linguisticamente, o mais interessante é seu campo semântico. Saudade pode envolver: falta; lembrança; desejo de retorno; amor; perda; distância; nostalgia; tristeza; carinho; esperança. E pode existir saudade de: uma pessoa, um lugar, uma época, uma versão de você mesmo, uma rotina, uma sensação, uma possibilidade que nunca aconteceu. Isso é importante. Porque você pode ter saudade de algo que não quer necessariamente recuperar. Você sente falta da sensação.
# 9. Hiraeth — uma espécie de saudade impossível - O galês tem hiraeth. É frequentemente traduzido como: saudade, nostalgia, homesickness, longing. Mas o conceito é mais complicado. Pode ser a sensação de desejar algo que ficou para trás — uma casa, uma terra, uma época, uma pessoa, uma sensação de pertencimento — inclusive algo que talvez nunca possa ser recuperado ou sequer tenha existido exatamente como imaginado. ([Wales][5]). É uma palavra especialmente interessante para o seu tema porque envolve: a presença emocional de uma ausência. Você sente que alguma coisa está faltando. Mas não necessariamente consegue apontar o que é. Isso é extremamente próximo de determinadas experiências liminais.
# 10. Sehnsucht — desejar uma vida que talvez nunca exista - O alemão possui Sehnsucht. Literalmente, a palavra está ligada à ideia de desejo intenso/anseio. Na psicologia contemporânea, Sehnsucht foi estudada como “life longing”: desejos intensos por estados de vida ideais, remotos ou inalcançáveis. É uma experiência ambivalente, porque contém simultaneamente desejo e consciência de que aquilo pode estar fora do alcance. ([ScienceDirect][6]). Isso pode ser: “Queria morar em outro lugar.”. Mas também: “Queria viver uma vida que nem sei exatamente como seria.”. É diferente de simplesmente querer alguma coisa. Existe uma espécie de dor pelo ideal. E isso aparece muito em estética de internet: “a vida que eu deveria estar vivendo”; cidades estrangeiras; noites chuvosas; apartamentos aconchegantes; viagens; juventude; romances; vida universitária; décadas passadas. Às vezes a pessoa não sente nostalgia de uma coisa. Ela sente nostalgia de uma vida possível.
# 11. Fernweh — saudade de um lugar distante - Outro termo alemão é Fernweh. Fern = distante. Weh = dor. É uma espécie de: “dor de estar longe de lugares que você deseja conhecer.”. É frequentemente traduzido como wanderlust, desejo de viajar, ou “saudade de terras distantes”. Seu antônimo tradicional é Heimweh, saudade de casa. ([Dicionário Cambridge][7]). Então: Heimweh → quero voltar para casa. Fernweh → quero estar longe daqui. Essa oposição é maravilhosa.
# 12. Mono no aware — a beleza triste de que tudo passa - Agora entramos numa tradição muito mais antiga. O japonês mono no aware é frequentemente traduzido como: “o pathos das coisas” ou “a sensibilidade diante da impermanência”. É a percepção emocional de que as coisas são belas justamente porque são passageiras. Uma flor de cerejeira é bonita. Mas sua beleza também é comovente porque ela vai desaparecer. Uma infância é bonita porque acabou. Uma noite é bonita porque vai terminar. Uma pessoa é preciosa porque é mortal. Uma cidade antiga é fascinante porque mudou. A estética está muito ligada à noção budista de mujō, impermanência. A tradição estética japonesa desenvolveu diversas formas de responder artisticamente a essa transitoriedade. ([Enciclopédia de Filosofia de Stanford][8]). E isso está muito próximo do sentimento que muitas pessoas descrevem quando encontram uma fotografia antiga: “É bonito porque já acabou.”.
# 13. Wabi, sabi e wabi-sabi - Aqui existe bastante simplificação na internet. Wabi e sabi não são simplesmente “minimalismo japonês”. São conceitos históricos muito mais complexos. ### Wabi - Está associado a simplicidade, austeridade, ausência de ostentação e uma valorização daquilo que não depende de riqueza ou espetáculo. ### Sabi - Está relacionado à beleza da idade, desgaste, pátina, envelhecimento e marcas do tempo. Por isso: uma parede descascada, uma madeira envelhecida, uma cerâmica rachada, um objeto usado durante décadas, podem adquirir beleza. Wabi-sabi, em sua formulação moderna, combina várias dessas sensibilidades. E é justamente por isso que o conceito aparece tanto na estética nostalgia/liminal: aquilo que ficou velho não precisa ser feio. Pode carregar tempo. A relação entre wabi, sabi e yūgen, inclusive, é frequentemente simplificada na cultura popular; historicamente eles não formaram desde sempre um “pacote” único como às vezes se imagina hoje. ([Nippon][9])
# 14. Yūgen — aquilo que parece esconder um mundo inteiro - Esse talvez seja um dos conceitos que mais combinam com as imagens que você descreveu. Yūgen (幽玄) é uma ideia estética japonesa associada à profundidade misteriosa, sugestão, sutileza e à sensação de que existe mais realidade por trás daquilo que conseguimos perceber. A Stanford Encyclopedia of Philosophy relaciona o conceito à preferência por sugestão em vez de explicação completa: uma montanha parcialmente escondida pela névoa pode ser mais evocativa justamente porque a imaginação completa aquilo que os olhos não conseguem ver. ([Enciclopédia de Filosofia de Stanford][10]). Imagine: uma montanha coberta de neblina. Você vê pouco. Mas justamente por isso imagina muito. Ou: uma janela iluminada numa casa distante.Você não sabe quem está lá. A mente inventa. Ou: uma rua que desaparece na neblina. Você não sabe onde termina. Isso é muito próximo da experiência estética de: “há algo além daqui.”. E isso é fundamental para liminalidade, dreamcore, backrooms, analog horror e diversas estéticas contemporâneas.
# 15. Ma — o poder do espaço vazio - Outro conceito japonês extremamente relevante é ma (間). Simplificando bastante: o intervalo. O espaço entre as coisas. O silêncio entre duas notas. O espaço vazio numa composição. A pausa numa conversa. Um corredor vazio. Uma janela sem nada acontecendo. O espaço que permite que alguma coisa exista. É interessante porque a estética ocidental frequentemente pensa: “O que devemos colocar aqui?”. O conceito de ma pode perguntar: “O que o vazio está fazendo aqui?”. E isso tem enorme relação com espaços liminares.
# 16. Hauntologia — talvez a palavra mais profunda de todas - Agora chegamos a hauntologia. E aqui precisamos separar a versão acadêmica da versão estética da internet. O termo foi criado pelo filósofo francês Jacques Derrida, especialmente em Specters of Marx (1993). O próprio termo é um trocadilho com ontology / ontologia: em francês, hantologie e ontologie têm uma proximidade sonora deliberada. ([Wikipedia][11]). A ideia básica é fascinante: o presente pode ser assombrado por aquilo que já não existe. Não necessariamente um fantasma literal. Pode ser: uma ideologia; uma época; uma promessa; uma tecnologia; uma possibilidade; uma cultura; uma versão do futuro. Algo desapareceu, mas continua presente como vestígio.
# 17. Hauntologia aplicada à nostalgia - Imagine uma cidade em 1998. Ela tinha: certas lojas; certos letreiros; determinada arquitetura; determinadas músicas; determinadas tecnologias; determinados hábitos. Agora estamos em 2026. A cidade mudou. Mas você encontra uma fotografia de 1998. Aquela cidade não existe mais. Entretanto, ela reaparece na fotografia. Ela está: ausente e presente simultaneamente. Isso é extremamente hauntológico. E vai além da nostalgia. Porque a hauntologia também pode envolver futuros que nunca aconteceram.
# 18. O futuro que morreu - Essa é uma das ideias mais fascinantes da hauntologia contemporânea. Imagine o futuro que alguém em 1985 imaginava: carros voadores, cidades futuristas, computadores gigantescos, arquitetura espacial, viagens interplanetárias, utopias tecnológicas. Algumas coisas aconteceram. Outras não. Hoje olhamos para essas imagens e sentimos: “Esse futuro deveria ter existido.”. Mas ele nunca existiu. Portanto, estamos sendo “assombrados” por um futuro perdido. Essa ideia foi particularmente explorada por pensadores como Mark Fisher, que conectou hauntologia à cultura popular, música e à sensação de que o presente contemporâneo não consegue produzir futuros radicalmente diferentes dos já imaginados. É uma espécie de: nostalgia pelo futuro. E isso é diferente de anemoia. Anemoia: “Queria ter vivido aquele passado.”. Hauntologia: “Ainda consigo sentir a presença de um futuro que nunca aconteceu.”.
# 19. Isso explica uma estética inteira - Por isso determinadas imagens de: computadores antigos; Windows 95; CRT; VHS; shoppings dos anos 1990; celulares antigos; publicidade velha; aeroportos; interfaces obsoletas; cidades futuristas desenhadas nos anos 1980; causam uma sensação tão estranha. Você não está apenas pensando: “Isso é antigo.”. Você está pensando: “Esse mundo tinha uma ideia de futuro que desapareceu.”.Isso é hauntologia.
# 20. Solastalgia — sentir saudade enquanto ainda está em casa - Essa é uma palavra particularmente interessante. Solastalgia foi criada pelo filósofo ambiental Glenn Albrecht. É o sofrimento provocado pela transformação negativa do lugar que você considera seu lar. A diferença para nostalgia é fundamental: Nostalgia: “Sinto falta de casa porque estou longe.”. Solastalgia: “Estou em casa, mas minha casa deixou de ser aquilo que era.”. Albrecht descreve isso como uma espécie de “homesickness while still at home”. O conceito nasceu em pesquisas sobre mudanças ambientais e foi formalizado em trabalhos acadêmicos a partir dos anos 2000. ([Psychoterratica][12]). Imagine: uma praça onde você brincava quando criança.Agora ela foi demolida. Você continua morando na mesma cidade. Mas aquele lugar deixou de existir. Ou: uma paisagem inteira foi transformada. Você não foi embora. O lugar foi embora de você. Isso é solastalgia.
# 21. E existe uma espécie de "arqueologia emocional" da internet - É aqui que tudo começa a convergir. Uma fotografia de um shopping vazio pode provocar: kenopsia → o lugar deveria estar cheio. - nostalgia → lembra outra época. - anemoia → talvez você nem tenha vivido aquela época. - mono no aware → tudo aquilo passou. - wabi-sabi → o envelhecimento tornou o lugar mais expressivo. - yūgen → parece existir algo além da imagem. - hauntologia → o passado continua assombrando o presente. - saudade/hiraeth → você sente falta de algo difícil de definir. - solastalgia → especialmente se aquela paisagem real foi destruída. Uma única fotografia pode carregar todos esses conceitos ao mesmo tempo.
# 22. Agora entramos no próprio "Dictionary of Obscure Sorrows" - E aqui está provavelmente a fonte que mais explica por que você está encontrando tantas palavras novas. John Koenig criou o The Dictionary of Obscure Sorrows, um projeto iniciado em 2009 cujo objetivo era criar palavras para experiências emocionais que sentimos, mas para as quais não possuímos uma palavra específica. ([Anemoia Mercantile][13]). É uma espécie de: dicionário de sentimentos sem nome. E muitas dessas palavras se espalharam pela internet. O interessante é que elas não são palavras tradicionais da língua inglesa. São neologismos deliberadamente inventados. Isso é importantíssimo para não cair numa armadilha comum: “Os alemães têm uma palavra para isso.”. Às vezes não. Às vezes John Koenig inventou uma palavra em inglês usando raízes alemãs, gregas, latinas etc.
# 23. Sonder - Sonder é provavelmente o maior sucesso do projeto. É perceber subitamente que: todas as outras pessoas possuem uma vida interior tão complexa e central quanto a sua. Você está andando na rua. Vê um homem entrando num ônibus. Até aquele instante: ele é apenas “um homem”. Então você pensa: ele provavelmente tem família, preocupações, memórias, amores, traumas, sonhos, uma infância, pessoas que o odeiam, pessoas que o amam... E percebe: eu sou apenas um figurante na vida dele. E ele é um figurante na minha. Mas ambos somos protagonistas das nossas próprias histórias. Koenig cunhou sonder em 2012. A origem é deliberadamente ambígua, envolvendo associações com palavras como francês sonder e alemão sonder-. ([Dicionário][14]). É uma palavra extraordinariamente adequada para: olhar pessoas pela janela de um ônibus à noite.
# 24. Jouska - Jouska: uma conversa hipotética que você ensaia repetidamente na cabeça. Você imagina: “Se aquela pessoa dissesse X, eu responderia Y.”. Então imagina a resposta dela. Então sua resposta. Então uma versão ainda melhor. É praticamente um teatro mental. Koenig construiu a etimologia de jouska a partir de jusqu'à, francês “até”. ([Dicionário de Tristezas Obscuras][15]). E é um ótimo exemplo de como esses termos não descrevem necessariamente grandes emoções. Eles descrevem pequenos mecanismos mentais cotidianos.
# 25. Vellichor - Essa é maravilhosa para o universo que você está descrevendo. Vellichor: a melancolia/nostalgia estranha de livrarias de segunda mão, impregnadas pelo sentimento de passagem do tempo. A palavra foi criada a partir de: vellum → pergaminho - ichor → fluido dos deuses na mitologia grega. ([Dicionário de Tristezas Obscuras][16]). Imagine entrar numa livraria usada. Você vê: livros de 1947, dedicatórias escritas à mão, páginas amareladas, nomes de pessoas que já morreram, histórias que você nunca terá tempo de ler. Cada livro contém uma vida que já passou. Isso é vellichor.
# 26. Chrysalism - Essa combina perfeitamente com o que você falou sobre conforto e tranquilidade. Chrysalism: a tranquilidade quase uterina de estar dentro de casa durante uma tempestade. Koenig deriva o termo de chrysalis, a crisálida de uma borboleta. ([Dicionário de Tristezas Obscuras][17]). Você está dentro. Lá fora: chuva, vento, trovões, escuridão. Aqui dentro: cobertor, televisão, iluminação baixa, segurança. Não é simplesmente tranquilidade. É: segurança por contraste com o caos externo.
# 27. Ellipsism - Ellipsism é a tristeza de saber que você nunca descobrirá como a história termina. Você morrerá. O mundo continuará. Você não saberá: como será a humanidade; que tecnologias existirão; como terminarão guerras; como serão as próximas gerações; que descobertas acontecerão; como será a Terra daqui a mil anos. É como ler uma história e chegar a: “...” e nunca poder virar a página. Daí a referência a ellipsis, a omissão/continuação que não vemos. ([Dicionário de Tristezas Obscuras][18]). Esse é um dos conceitos mais existenciais do dicionário.
# 28. Onism - Onism é a frustração de estar preso a apenas uma vida, um corpo e um lugar por vez. Você olha um painel de aeroporto: Tóquio, Cairo, Paris, Reykjavik, Buenos Aires, Seul. E percebe: eu não posso viver todas essas vidas. Mesmo se viajar muito, sempre existirão milhões de experiências que você nunca terá. Isso é onism. ([Tumblr][19]). É uma espécie de: luto pelas vidas que você não poderá viver.
# 29. Exulansis - Exulansis: desistir de tentar explicar uma experiência porque as outras pessoas simplesmente não conseguem compreendê-la. Você conta alguma coisa. A pessoa não entende. Você tenta explicar novamente. Ela continua sem entender. Então você pensa: “Deixa pra lá.”. E aquela experiência começa a ficar isolada dentro da sua própria história. Koenig associa a palavra ao latim exulans, ligado a exílio/errância. [Dicionário de Tristezas Obscuras][20]). É uma espécie de: solidão da experiência.
# 30. Occhiolism - Occhiolism é a consciência de que sua percepção do mundo é absurdamente limitada. Você percebe: Eu vejo apenas uma fração do espectro. Ouço apenas determinadas frequências. Tenho um campo visual limitado. Não consigo saber o que acontece atrás de mim. Meu cérebro preenche lacunas. Minha experiência do universo é uma espécie de buraco de fechadura. Koenig associa o termo a occhiolino, “pequeno olho”, nome atribuído por Galileu a um protótipo de microscópio. ([Dicionário de Tristezas Obscuras][21]). Isso se encaixa muito bem em experiências de vastidão, céu noturno, oceano e espaços infinitos.
# 31. E há dezenas de outros - O universo de Koenig é enorme. Alguns que combinam particularmente com aquilo que você está descrevendo: - Lachesism: desejo estranho de que aconteça uma catástrofe para romper a monotonia da vida. - Zenosyne: sensação de que o tempo está ficando cada vez mais rápido. - Kairosclerosis: perceber que está feliz enquanto a felicidade está acontecendo e, por isso, começar a observar em vez de simplesmente vivê-la. - Énouement: sensação agridoce de chegar ao futuro e perceber que uma história acabou. - Anecdoche: conversa em que todo mundo fala, mas ninguém está realmente ouvindo. - Ambedo: absorção profunda em pequenos detalhes sensoriais. - auerbauertraurigkeit: impulso inexplicável de afastar as pessoas, mesmo querendo conexão. - Zielschmerz: medo/dor antecipada de finalmente alcançar aquilo que você deseja. - Astrophe: desejo de explorar além da Terra. - Altschmerz: cansaço/frustração com os mesmos problemas recorrentes da vida. - Essas palavras não têm o mesmo estatuto que conceitos acadêmicos tradicionais. São neologismos literários, e justamente por isso são tão interessantes.
# 32. E existe outra categoria: palavras reais de outras línguas - Isso é importante porque a internet frequentemente mistura: # A) conceitos realmente tradicionais: saudade, hiraeth, Sehnsucht, mono no aware, yūgen, wabi, sabi, - com: # B) neologismos contemporâneos: anemoia, kenopsia, sonder, vellichor, chrysalism, onism, - e ainda: # C) conceitos acadêmicos: liminalidade, hauntologia, solastalgia, uncanny, - E tudo isso acaba aparecendo junto em Pinterest, TikTok, YouTube, Reddit, Tumblr, Instagram etc.
# 33. Há também o conceito de Stimmung - Essa é uma palavra alemã muito interessante. Stimmung tem uma história que começou literalmente com afinação de instrumentos musicais. Depois passou a ser utilizada em estética, psicologia e filosofia para designar algo próximo de: humor + atmosfera + disposição + sintonia. Ou seja, não é apenas: “eu estou triste”. Pode ser: “o ambiente inteiro parece triste”. A palavra consegue abranger tanto o estado do sujeito quanto a atmosfera do mundo ao redor. ([PubMed Central (PMC)][22]). Isso é extremamente próximo daquilo que você descreveu: “a madrugada tem uma sensação.”. Não é necessariamente uma emoção localizada dentro de você. É como se: você + ambiente + iluminação + temperatura + sons + horário + memória formassem uma única experiência.
# 34. E existe a nostalgia de tecnologia - Essa merece uma categoria própria. Porque hoje podemos sentir nostalgia de: Windows XP; MSN; Orkut; telefones antigos; câmeras digitais; CDs; DVDs; VHS; CRT; jogos antigos; interfaces antigas; sons de modem; comerciais; menus de aparelhos; internet discada. Isso é interessante porque frequentemente não sentimos falta da tecnologia. Sentimos falta do mundo social que existia ao redor dela. Por exemplo: MSN não é apenas MSN. É: adolescência + madrugada + computador + quarto escuro + conversa + expectativa + música + uma época específica da vida. O objeto vira uma âncora temporal.
# 35. O cheiro é especialmente poderoso - Existe uma razão para isso. Cheiros estão fortemente associados à memória autobiográfica. E isso cria fenômenos como: cheiro de chuva, cheiro de livro velho, cheiro de piscina, cheiro de escola, cheiro de protetor solar, cheiro de computador/eletrônicos, cheiro de loja, cheiro de hospital, cheiro de madeira velha, que podem provocar uma sensação muito maior do que simplesmente: “isso tem um cheiro bom.”. O cheiro funciona como um atalho para um contexto inteiro. É quase uma máquina de viagem temporal subjetiva.
# 36. Petrichor - E já que estamos falando de cheiro: petrichor é o nome dado ao cheiro característico associado à chuva sobre solo seco. É uma palavra muito mais estabelecida do que as criações de Koenig. E observe como ela se encaixa nesse universo: chuva + noite + rua vazia + iluminação urbana + silêncio pode produzir uma combinação de: petrichor + nostalgia + kenopsia + saudade + atmosfera. Uma palavra não precisa representar toda a experiência. Ela pode ser uma peça do mosaico.
# 37. A estética da madrugada é particularmente poderosa - E acho que aqui está uma das coisas que você está percebendo intuitivamente. A madrugada altera o significado dos lugares. Uma cidade às 15h: funcionalidade. Uma cidade às 3h: atmosfera. O mesmo supermercado: às 14h → consumo. às 3h → estranheza. O mesmo posto: às 18h → cotidiano. às 3h → quase cinematográfico. O mesmo estacionamento: cheio → normal. vazio → liminal. Isso acontece porque o espaço perde sua função social habitual. E quando a função desaparece, começamos a enxergar o espaço como espaço.
# 38. É por isso que "night walks" viraram uma estética - Andar pela cidade de madrugada pode combinar: solidão, liberdade, silêncio, perigo potencial, tranquilidade, anonimato, nostalgia, sensação de suspensão temporal. Você está no mesmo mundo de sempre. Mas ele parece temporariamente desligado. É quase uma experiência liminar temporal: dia → madrugada → dia. Você está acordado quando grande parte da sociedade está dormindo. Isso cria uma sensação de estar: fora do ritmo normal do mundo.
# 39. E isso explica a mistura aparentemente contraditória de conforto e medo - Você mencionou algo importantíssimo: tranquilidade, conforto, serenidade, paz, medo, tensão, incômodo. Por que essas coisas aparecem juntas? Porque o cérebro não organiza experiências em uma única escala de “agradável/desagradável”. Um espaço pode ser simultaneamente: seguro e estranho, bonito e triste, calmo e assustador, familiar e alienígena, aconchegante e solitário, nostálgico e desconhecido. Um exemplo perfeito: Uma piscina coberta vazia à noite pode ser: bonita → porque a iluminação é suave. tranquila → porque não há ninguém. - nostálgica → porque lembra infância. - estranha → porque uma piscina deveria estar cheia. - assustadora → porque você está sozinho. - confortável → porque o ambiente é protegido. - liminal → porque o espaço está entre seu uso normal e seu abandono momentâneo. A contradição é a própria experiência.
# 40. Talvez o conceito que melhor resuma tudo seja "presença da ausência" - Observe quantos conceitos que discutimos chegam ao mesmo ponto: Kenopsia → pessoas ausentes. - Saudade → pessoa/lugar ausente. - Hiraeth → lar/tempo ausente. - Anemoia → passado nunca vivido. - Mono no aware → presente destinado a desaparecer. - Hauntologia → passado/futuro ausente que continua presente. - Solastalgia → lugar conhecido que desapareceu enquanto você permanece. - Vellichor → vidas e épocas presentes nos livros, mas ausentes do presente. - Ellipsism → futuro que existirá sem você. - Onism → vidas que você nunca poderá viver. - Yūgen → aquilo que está presente justamente por ser parcialmente invisível. - É quase como se todo esse universo girasse em torno de uma única pergunta: Como podemos sentir aquilo que não está aqui?
# 41. E existe uma segunda pergunta: "como podemos sentir o tempo?" - Porque todos esses conceitos também transformam o tempo em algo quase espacial. Normalmente pensamos: passado ← presente → futuro. Mas essas experiências fazem o tempo parecer sobreposto. Uma fotografia antiga coloca o passado dentro do presente. Uma ruína coloca o passado fisicamente dentro do presente. Um objeto antigo coloca décadas de uso dentro do presente. Uma música antiga coloca uma época inteira dentro de alguns minutos. Uma cidade transformada contém vestígios de sua versão anterior. Um lugar liminal parece suspenso entre: o que era + o que é + o que deveria ser. É aí que a hauntologia fica tão poderosa.
# 42. Por que isso explodiu justamente agora? - A meu ver, há vários fenômenos simultâneos. - # 1. Internet arquivou o passado. Nunca tivemos acesso tão fácil a fotografias, vídeos, comerciais, músicas e objetos de décadas anteriores. - # 2. A tecnologia ficou velha muito rápido. Coisas de 10–20 anos atrás já parecem arqueológicas. - # 3. A vida digital criou uma fome por materialidade. VHS, câmeras digitais, CDs, livros, filmes físicos, fotografia granulada etc. passaram a representar algo tangível. - # 4. Redes sociais transformaram sensações em estética. Antes alguém podia sentir: “Essa madrugada está estranha.”. Hoje isso vira: liminal nightcore nostalgia aesthetic e recebe milhares de pessoas dizendo: “EU SEI EXATAMENTE O QUE VOCÊ QUER DIZER.”. - # 5. A linguagem virou ferramenta de identificação. Quando alguém descobre: “Existe uma palavra para isso.”, a sensação deixa de parecer exclusivamente sua. É exatamente o poder de palavras como sonder, anemoia e kenopsia.
# 43. E existe algo muito bonito nisso - Talvez seja por isso que essas palavras estejam se espalhando. Não porque as pessoas ficaram subitamente mais melancólicas. Mas porque ficamos melhores em perceber e compartilhar microexperiências. Durante séculos, alguém poderia sentir: “Existe alguma coisa estranha em estar sozinho numa estação de trem vazia às quatro da manhã.”. E simplesmente não teria uma categoria linguística para isso. Agora pode dizer: kenopsia. - Alguém vê uma fotografia de 1970 e pensa: “Sinto saudade desse lugar.”. Mas nasceu em 1995. Agora pode dizer: anemoia. - Alguém olha para a cidade moderna e pensa: “Sinto falta de um futuro que nunca aconteceu.”. Agora existe: hauntologia. - Alguém entra numa livraria antiga e sente uma tristeza inexplicável: vellichor. - Alguém fica em casa durante uma tempestade e sente uma paz quase física: chrysalism. - Alguém percebe que nunca verá o fim da história humana: ellipsism. - Alguém percebe que existem milhares de vidas possíveis que nunca viverá: onism. - E alguém simplesmente olha uma rua vazia de madrugada e sente: alguma coisa. Talvez seja justamente esse último ponto que explique o fascínio por esse universo.
# Um pequeno "mapa" desse mundo - Se eu tivesse que organizar tudo que você está descrevendo em um mapa conceitual, ficaria mais ou menos assim: - TEMPO: nostalgia, anemoia, saudade, hiraeth, Sehnsucht, mono no aware, ellipsism, hauntologia. - ESPAÇO: liminalidade, kenopsia, ma, solastalgia, Stimmung. - AUSÊNCIA: saudade, hiraeth, kenopsia, hauntologia, exulansis, onism. - MISTÉRIO: yūgen, uncanny, occhiolism. - CONFORTO: chrysalism, wabi, sabi. - SOLIDÃO: saudade, hiraeth, kenopsia, solastalgia, Sehnsucht. - MEMÓRIA: nostalgia, anemoia, vellichor, mono no aware, hauntologia. - POSSIBILIDADE: Sehnsucht, onism, ellipsism, hauntologia. - E o ponto em que todas elas se encontram é algo como: “Eu estou aqui, agora, mas consigo sentir aquilo que não está aqui.”. É provavelmente a melhor descrição do universo que você acabou de apontar. E, curiosamente, isso também ajuda a explicar por que liminal spaces, dreamcore, nostalgia, vaporwave, analog horror, night walks, chuva, neon, VHS, ruínas, fotografias antigas, cidades vazias, música ambiente e estética dos anos 80/90/2000 frequentemente acabam aparecendo no mesmo ecossistema cultural. Eles não são necessariamente o mesmo fenômeno — mas exploram as mesmas feridas perceptivas: tempo, ausência, familiaridade, impermanência, possibilidade e estranheza.
16 agosto 2026
Filmes feitos com IA no cinema
Me apareceu um filme feito com IA exibido lá fora durante um festival de cinema e fui pesquisar sobre. Pedi pro ChatGPT me falar deles e tem vários. Dezenas. Notei que muitos se intitulam o "primeiro longa" e não são. Muitos dos filmes também se vendem como "100% IA", mas possuem pessoas por trás em algumas etapas, tendo roteiro e edição totalmente humano, deixando a IA mais na parte audiovisual. Outros mesclam os dois meios (exemplo: pedir pra IA ir montando o roteiro enquanto a guia em cada etapa).
Dei uma olhada em alguns e os resultados não são animadores não. Mas imagino até o fim da década como isso vai ficar, considerando o rápido avanço da tecnologia. Até agora o que mais me pareceu "normal" foi o que me fez ir atrás do tema. "Hell Grind". https://www.youtube.com/watch?v=t33k2tn4GpA
Segue a lista que o ChatGPT fez depois de uma conversa e várias insistências e correções (pois é):
Os que foram vendidos ou divulgados como "o primeiro filme de IA" (apenas longa-metragem): Window Seat (2023); DreadClub: Vampire's Verdict (2024); Where the Robots Grow (2024); A Very Long Carriage Ride (2025); My Boyfriend Is a Superhero!? (2025); Post Truth (2025); I'm POPO (2026); Raphael (2026); Hell Grind (2026); Dreams of Violets (2026); Strings (2026).
Outros citados: THTHNG: Desolation Unknown (2023); The Eternal Recurrence (2024); The Epic of Gilgamesh (2024); Victory Is in the Grave (2024); Love You (2025); Naisha (2025); The Next Salahuddin (2025); Brainstare (2025); Deep Frame (2026); The Red Dot (2026); Rising Embers (2026); Man in Hanbok (2026); Cully Hill Boys (2026).
03 julho 2026
Hollywood anunciando adaptações vindas da internet
[ATUALIZADO 18/07/26]
Anunciaram esses dias um filme do Siren Head, uma lenda de internet, que nem o Slenderman, sobre uma criatura gigante de corpo esguio e cabeça de sirene. Poucas semanas depois, anunciaram também que o Cartoon Cat, outro personagem do mesmo criador, também ganhará filme.
Um dos anúncios que mais chamou a atenção foi de que o Steven Spielberg vai fazer um filme de terror sobre o Catálogo Mandela, outro viral de internet, sobre entidades que atacam uma vila e tentam se passar por moradores locais ou algo assim. Parece meio Invasores de Corpos.
Outro anúncio foi da franquia de terror antológica de found footage V/H/S, que em seu próximo filme será todo dedicado a Fundação SCP. A tal fundação é um projeto colaborativo antigo na internet, de quase duas décadas, sobre uma organização secreta que caça e estuda criaturas e outros eventos sobrenaturais. É como se reunissem as creepypastas num só lugar.
Dizem que os sucessos de Obsessão e Backrooms (e alguns outros filmes) impulsionaram Hollywood a ir para a internet investir no terror. Teve notícia sobre estarem no Reddit buscando ideias, seja pelo diretor ser um youtuber, seja pelo conteúdo da história vir da internet mesmo. Backrooms em especial vem de outra lenda online, envolvendo espaços liminares, onde pessoas vão parar em locais de infinitas salas repetitivas e com objetos fora do lugar, onde também há seres morando por lá. O baixo custo e o alto lucro em bilheterias acendeu um sinal de interesse no mercado cinematográfico.
Mas não é só terror que estão buscando. Já tem a um tempo um projeto do Michael Bay para adaptar Skibidi Toilet, que era febre na internet uns anos atrás, sobre vasos sanitários com cabeças humanas que enfrentam humanóides com cabeça de câmera, televisão e afins. Pois é.
E já teve anúncio também de um filme adaptando um jogo do Roblox sobre colecionadores de cartas de italian brainrots (Tralalero Tralala, Tung Tung Tung Sahur, etc). E parece que tem dois outros jogos dentro do Roblox que foram confirmados adaptação também.
Fico curioso pelos resultados. Se não repetirem o erro de Slenderman e O Meme do Mal, já tá bom.
E Backrooms 2 já foi confirmado.
14 junho 2026
[VER ONLINE] The Oldest View
Websérie do mesmo criador da websérie mais famosa sobre Backrooms. São 6 episódios. O grande foco está no episódio 3. Um youtuber descobre uma passagem até um shopping e lá encontra um boneco gigante.
Sobre Mim
- Lucas
- Ninguém importante. Formado em jornalismo. Ex-colunista de cinema, quadrinhos e k-pop por aí.